"Na Incoerência das Eras".
pisando sonhos, beijando vento,
falando as pedras, agarrando os ares...
– Oh! Deixe-me ir para onde for...”
Cecília Meireles.
Mais uma noite?! É claro que eu to afim!
Mais uma dose?!... Bem, bem... sejamos cidadãos conscientes... No entanto, quando quatro caras se reúnem para uma noitada sem destino, de farras e badernas, tudo pode acontecer.
Assim que atingimos o destino, o pelotão zarpou do veículo, e já munidos de latas de cerveja fomos dar uma volta, em reconhecimento do terreno, batendo em busca de pontos estratégicos para o ataque ao alvo (ou seja, as mulheres).
Não, não deixamos.
– Prazer, meu nome é ADILSON!!!
Joe ficou todo constrangido, por ter dados três beijinhos naquele traveco (traveco não que é pejorativo: transexual, vamos dizer). O Dé e o Science que presenciaram a cena riram muito da cara do Joe, que ficou puto da vida.
Sentada na ponta extrema das duas mesas, que foram juntadas, estava a bela ruiva. Do seu lado direito uma outra garota, até que bonitinha, e depois vinha o Science. À seu lado seguia a mais linda das garotas – uma ninfeta maravilhosa: morena de cabelos negros e olhos azuis delicados – , e fechando o cerco a esta, vinha o Dé. Do lado esquerdo da ruiva estavam posicionados o Joe, o ADILSON!, e por fim, este pobre azarado que sou. Desta forma, as conversas e cantadas corriam. Apenas eu me encontrava isolado, tendo que disfarçar para não atrair a atenção do traveco Adilson (digo, transexual. Perdão).
Era o Joe.
A garota ficou revoltada. O Joe, por sua vez, ria sem parar de tudo, e continuou tentando se achegar a ela, que recuava.
– Se afasta de mim! – dizia ela. – Tira suas mão de mim!
O banzé estava armado. Na mesa, todos riam. A ruiva pediu ajuda a suas amigas; e vendo que o Joe não se conteria – embriagado como estava – o Dé decidiu socorrer a pobre e bela garota ruiva, seguido pelo Science, e pelo ADILSON!. Ficaram na mesa apenas eu, a garota bonitinha, e a bela, a graciosa morena de cabelos negros e olhos azuis da cor do mar.
Oh, confusão abençoada!
Era tudo o que eu precisava para ver minha noite salva.
Não pensei em mais nada, tratei de pegar meu copo de cerveja – única e verdadeira companhia que tinha naquela mesa, até então – e fui sentar-me ao lado da radiante moreninha de olhos azuis, que agora estava livre do cerco feito por meus amigos sacanas. Sem perda de tempo, elogiei seus belos olhos, sua beleza, e como quem não quer nada, passei o braço por detrás do encosto de sua cadeira, para manter uma maior aproximação. Enquanto o Joe corria atrás da ruiva, rindo sem parar, e seguido pelos outros, que tentavam impedi-lo, eu me esforçava ao máximo para ganhar a confiança da minha moreninha dos sonhos. Fui um verdadeiro cavalheiro (cafajeste, mas cavalheiro): lhe ofereci minha blusa quando ela reclamou de frio, servi-lhe mais cerveja quando me pediu, e prestava atenção a cada palavra que dizia, sorrindo-lhe sempre. Minha total atenção dispensada a ela, pareceu começar a fazer efeito, pois ela passou a confiar em mim, me presenteando com seus maravilhosos sorrisos angelicais.
Não poderei descrever aqui a maravilhosa sensação que tive com aquele beijo. São coisas que nos aquece o coração, o corpo, e a alma.
Quando terminou a confusão entre o Joe e a ruiva, todos voltaram à mesa – inclusive a garota bonitinha, que deveria ter se levantado, assim que eu e meu anjinho de cabelos negros e olhos azuis começamos a nos beijar.
Pude ver a surpresa estampada no rosto de meus amigos, ao retornar. Por dentro, era como se eu pudesse dizer a eles: “Estão vendo? Não adiantou nada tentarem me sacanear e me passar para trás”.
Pouco depois, saímos do bar e fomos em direção a grande praça onde ficavam as barraquinhas de comes-e-bebes da festa. Eu ia abraçado a minha bela moreninha, trocando beijocas e sorrisos. A ruiva ia com a cara fechada, enquanto meus amigos não paravam de rir, arruaceiros como só, se afastando por momentos de mim e das garotas, e... do ADILSON!
Ela quis me devolver a blusa, no entanto, recusei-me. Falei para não se preocupar, pois voltaria rapidamente, ainda em tempo de lhe dar um ultimo beijo de despedida. Ela me sorriu, como somente ela conseguia, e me envolveu o pescoço com os braços, me oferecendo seus úmidos lábios, para um beijo.
Não recusei. Não recusaria nunca.
E assim foi que rumei em auxílio aos amigos.
Quando voltei, apressado, ela não estava mais lá.
Tolo. Apenas eu não percebi, que para ela, o beijo que me deu antes de me afastar, já era o derradeiro beijo de despedida.
Pena eu não ter me precavido antes, poderia ter pedido alguns dados para mantermos contato. Contudo a vida é assim mesmo: feita de encontros e desencontros.
Talvez um dia, quem sabe, ela venha a ler estas mal traçadas linhas.
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