"Griloceraptors".
(A meta-inversão de uma meta-morfose).
Lendo sobre Franz Kafka, deparei-me com uma matéria, onde, a pedido de um jornal, dezoito escritores aceitaram o desafio de reescrever o início de “A Metamorfose”.Dentre algumas versões magníficas e outras nem tanto, pensei em escrever minha própria.
Peço a todos que me perdoem por este sacrilégio.[Desenhos de Franz Kafka]

“O que em mim haja,
que não seja de valor
e de utilidade permanente,
nem poderá, nem deverá ser conservado.
Horácio.
...Certa manhã depois de despertar de sonhos perturbadores, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado. Deitado sobre a própria couraça, ergueu a cabeça e viu seu ventre marrom, de uma acentuada convexidade, com fundas saliências; suas esquálidas pernas, se comparadas a seu corpo, agitavam-se frenéticas, aos seus olhos.
“O que aconteceu comigo?”, ele se perguntou.
Seus olhos voltaram-se então para fora: viu o tempo nublado, podia ouvir as gotas de chuva caindo renitentes. Pensou em dormir mais um pouco, no entanto, teve medo: e se voltasse a ter sonhos perturbadores; e também, sabia da necessidade que tinha, de labutar mais um dia pela dura subsistência (ou seria sub-existência?) – bem, isso ele não sabia, só sabia da dura batalha. Além do mais, era melhor despertar de vez mesmo, pois queria se livrar logo do estranho e intranqüilo sonho que tivera (um pesadelo, isso sim!); um sonho muito real, que lhe arrepiou, só de se lembrar. Imagina que insanidade aquele sonho: em que ele, por um momento (ainda sonhando) imaginara ter despertado, metamorfoseado em um humano, e onde sofrera muito devido ao grande constrangimento que passara, junto àquela família humana: o espanto, a confusão, a repulsa!
Por sorte, fora apenas um sonho ruim. Agora ele já se encontrava desperto de verdade, e já se via em sua real forma: a de um inseto.